quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Dos Sonhos Idos

Apanharam-te.
E encerraram o teu passo de miúdo no castelo das pedras gotejantes.
Mataram-te.
E à míngua de sonho, amor e fé, te deixaram esquecido, onde nunca estiveras antes.
Passaram-te a mão na nuca e afagaram a tua já cadáver vontade.
Disseram-te que não importa, que aprenderias com a idade.
Aturaram a tua revolta e puseram-te compressas na dor.
Alguém te ofereceu uma flor...
Tudo calmamente,
tudo irrealmente,
tudo perfeitamente, como se tu nada visses!
Tudo vomitadamente, como se tu não sentisses a raiva a gangrenar-te o peito!
- Quem me acode, que eu vou fazer uma desgraça!?
(Quem me sustenta, que eu vou fazer uma tolice?!) -
Esbarraste, em cima da cama em que caíste,
com a perfeita máscara cinzenta que lá te estenderam...
Tens os ossos frios agora,
tens a alma fria e de fora,
tens nas mãos o coração que te chora
e por dentro a carne que não sentes...
Vestes a pele que te deixaram.
E caminhas em direcção ao escritório do mundo.
Quase consegues cheirar a imortalidade ao fundo...
Mas não.
É só a tua cara que se enche de suor,
é só o apertar dos punhos que te estala os dedos.
São-te só os pés a caminhar para trás
e os olhos estacando-te quedos.

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