terça-feira, 29 de julho de 2008

A (In)Felicidade

É não fazer com que alguém se sinta mal.
É não destruir um sorriso com a bílis.
É não ser um verme de existência sem sentido.
É não se alimentar da energia do Homem.
É não agredir.
É não pisar.
É não desrespeitar.
É não magoar.
É não ser um filho da puta.
É um princípio e não um fim.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Sonho Vão

Esmaga-me alguém as costas com pisadelas medonhas
Pontapeiam-me as costelas até
Cuspir sangue
Desmaio e
Vou parar ao hospital onde
Acordo já de pé
Dou um murro estilhaçante no chefe descoroçoado e
Respiro pesado como um pesado saco de areia a ribombar por coração
Apertam-me os pulmões e
Obrigam-me a gemer
Agito-me desconfortado e a
Rebentar de arreliação
Mergulho de novo no vácuo para
Escapar
Voo para o fundo negro amniótico da inusitada ilusão
Voo escarpa abaixo mente acima - consciência - sonho vão.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Teatricalikaze

A luz acende sobre a cortina e todos se calam.
A música irrompe invadindo a sala.
Um ser pequenino espreita timidamente...
Tudo explode para cima do público, numa onda de energia que vaga a sala inteira, bate no fundo e volta para trás!
Lá em cima, o pequenino artista, "surfa" as cabeças dos espectadores, agora transformado num demónio invencível. Salta, canta, dança e faz o pino, urrando palavras e gargalhadas estridentes!
Devora e hipnotiza o ambiente. Destemido e confiante, parece um domador de leões!
Com as feras em sentido, manobra a sua arte e faz passar a todos, a sua mensagem.
Termina o seu número.
Retira-se lentamente do palco, depois de voltar as costas ao público, como o toureiro faz ao touro domado...
Ao ritmo dos seus passos marcados, a música, a luz, a máquina, desvanecem-se, parecendo querer segui-lo em silêncio. - Para onde irá, depois que volta à escuridão dos bastidores? A que cheirarão os buracos nas telhas e as marcas de humidade nas paredes? -
A cortina cai, e os leões, terminada a hipnose, voltam à vida, rugindo agora como se calhar, nunca.
De novo pequenino, reaparece aquele ser tímido e vulnerável.
Aproxima-se da ribalta e dos leões que rejubilam, ávidos por um pedaço da sua carne.
Ele, sem saber porquê, esboça um sorriso, e agradece...

terça-feira, 20 de maio de 2008

Surreal?






















- Surreal é a realidade...


domingo, 18 de maio de 2008

Sapo

Mantêm-te calmo.
Não discutas.
Nem fales mal dos outros à boca pequena.
Não conspires na sombra;
nem prenuncies um Novo Mundo...
Tudo o que possas pensar que é só teu, já está farto e gasto de ser inventado...
Não leves a mal.
Nem te sintas quartado.
Aqui, ninguém quer limitar a tua autêntica e jorrante mente criativa;
resfolegante de tão imaginariamente açaimada...!
Sustém o fôlego;
e expira depois, desabridamente...
Repete o exercício até se desapertar o nó na tua garganta.
Isso...
Engole...
É o melhor que tens a fazer face ao fracasso da tua vaidade:
engole o tamanho da tua insignificância, chama-me cínico e vai para casa!
Come um iogurte;
deita-te banalmente no sofá e contempla a face do mal;
contenta-te por estares simultaneamente dentro e fora dele...
Estende uma manta sobre as pernas e desculpa o conforto do teu lar com a ideia de que
já não és um bandalho.
Agora, estás pronto para a engorda...
E esta noite dormirás descansado;
pois tornaste-te consciente...

sábado, 17 de maio de 2008


Ínsua
Eu quis levantar os braços ao céu
e beber o Sol de frente
quis correr perdidamente
perder o equilíbrio e cair.
Eu quis rebolar no cheiro da erva
despir a camisola e lançá-la ao ar
quis assim quase nu rebolar
pelo chão do meu país.
E quis mergulhar no rio
provar da água no seu leito
eu quis ser o fugitivo perfeito
deste quotidiano quotidiano.
E quis afundar minhas mãos no lodo
sentir o seu abraço fétido
eu quis ser o homem intrépido
que apenas faz o que quer.
Eu quis tanto e quis tanta coisa
e supus que tudo era sentimento
ignorava aí o pensamento
que agora tão nitidamente me guia:
O de que tudo é vida e tudo é sonho
tudo é triste e quiçá risonho
todos magoamos e somos magoados
e todos triunfamos mas todos somos olvidados...

terça-feira, 13 de maio de 2008

Momento de Outono

Não consigo escrever mais.
As palavras são poucas e não saem.
Os pensamentos, ténues e fugazes como vislumbres de uma luz baça e opaca.
Esfumam-se-me as ideias, como centelhas de fogo-de-artifício estragado...
Qualquer tentativa de criar é neste momento pura pólvora seca.
- E a culpa de quem é?
- Da minha falta de sistematização talvez. -
(Alguém tem de pagar a factura e eu estou demasiado aborrecido e deprimido para isso...)
Não estou cansado;
nem triste;
muito menos suicida ou desesperado;
Estou bem.
Sinto-me bem...
Apenas desinspirado,
absorto e cinzento como a estação.
E talvez com falta de mimo.
É isso...
Estou mimalho e só me apetecem chinelos e estupidificações no sofá...
(Acho que estou com falta de químicos...
Miligramas de decisão...
Unidoses de confiança...
Repartidas em três tomas diárias.
Tudo muito confortável...
Comprimidos que vivem por nós.
Fantástico...
Não é?
Quem pensar o contrário, que enfie a sua verdade no cú e me deixe em paz...
Estou-me cagando.
Quem quiser que sofra pela não culpa de viver...
Eu não.)